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«João Luís Barreto Guimarães publicou há não muito tempo "Lugares Comuns", um excelente livro de "poemas em prosa". "3 (Poesia 1987-1994)", integrado na graficamente estimulante colecção de poesia da editora Gótica, vem agora reunir as anteriores obras do autor. Como vários críticos puderam já observar, João Guimarães destacou-se, entre outros aspectos, pela destreza quase obsessiva com que cultiva a arte do soneto (apenas dois dos poemas incluídos neste livro não têm os convencionais 14 versos). Não querendo incorrer numa leitura demasiado "formalista", haverá a sublinhar a visível sedução do autor pela materialidade do signo, mesmo no que isso possa ter de meramente lúdico (...). Outras preferências gráficas e sintácticas - passíveis, obviamente, de determinar, contaminar ou suspender o "sentido" - consistem no recurso a elipses, parêntesis e finais abruptos (...). Poder-se-ia dizer que estamos perante uma estética da imprecisão, à qual não será alheia a presença recorrente do vocábulo "algo" (...). Note-se, porém, que essa imprecisão assenta num núcleo lexical a que o poeta se tem mantido fiel e de que fazem parte "sol", "gato", "amigos", "riso". São essas, talvez, as palavras que nesta poesia melhor retêm ou reinventam "a sucessão dos dias" (...), assumindo-se como "pequenos refrões onde se constrói o efémero" (...). O autor tem, aliás, lucidez bastante para reconhecer que "não há oceanos a descobrir apenas: pequenas / águas" (...). A humildade, neste caso, traduz-se num misto de serenidade e de resignação, à imagem do que sucede em certos poemas de Larkin (autor por duas vezes citado): "há que aceitar as / coisas como são embora longe do sítio da razão" (...). Mas seria talvez apressado ou inoportuno falarmos de "felicidade" a propósito de alguém que reconhece que "há uma certa ingenuidade em tentar ser feliz" (...). Seja como for, a ignorância (ou um simulacro dela) pode revelar-se o melhor antídoto para a dor em poemas que se incumbem de dissipar "eventuais / porquês perante a real forma das coisas" (...). Daí resulta não uma tonalidade próxima da angústia ou da melancolia mas antes uma irónica compaixão pelo quotidiano, cuja poética talvez possa ser encontrada nos seguintes versos: "perder o lugar das coisas ganhar o / silêncio do sítio por elas desocupado" (...). Estamos, portanto, em presença de um "realismo" baço, desfocado, que resvala por vezes para lugares prosódicos e lexicais em tempos frequentados por António Franco Alexandre: "vens / caindo / pela dor / acomodando // nuas palavras / à ferida de ter / perdido. a face é / pequena para sentir // o que em nós sobrevive" (...). Falar de epigonismo seria, sem dúvida, excessivo. (...) Felizmente, são várias e predominantes as passagens em que esta escrita obstinadamente coloquial se consegue redimir dos seus frívolos pecados. Estou a pensar, sobretudo, na elegante concisão com que o humor do poeta se dá a ler: "a procura / é parte integrante do poema não pode ser / vendida separadamente" (...). Ou, ainda, na frequência com que se disseminam pelos textos imagens imprevistas do quotidiano, assentes no que à partida não passaria de um simples apontamento. Sirvam de exemplo a descrição "heraclitiana" de uma viagem de táxi ou a enternecida homenagem à Torre dos Clérigos (e à cidade do Porto) que encerra o livro (...). Haverá, ainda assim, momentos de insustentável leveza: "o terramoto de Lisboa foi em mil700 e / qualquer coisa e tu estás aí e não fazes nada (não / me abraças não me beijas não sorris:) então? espero" (...). Mas esta "leveza", em que alguns por certo verão um defeito, afirma-se quase paradoxalmente como a qualidade maior da escrita de João Luís Barreto Guimarães. De resto, não será a poesia portuguesa mais recente (com as habituais excepções) uma arte de atravessar leve, levemente, os dias e os livros?»
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